As alocações deste capítulo são exemplos ilustrativos para estudo, por classe de ativo. Não são recomendações individuais.
15.1 A regra que define cada carteira
Para cada objetivo, o risco máximo é o menor entre dois limites:
- O limite do prazo: quanto risco aquele dinheiro pode correr sem comprometer o objetivo (Capítulo 6).
- O limite do perfil: quanto risco você aguenta sem vender em pânico (Capítulo 5).
| Prazo do objetivo | Renda variável máxima pelo prazo | Conservador | Moderado | Arrojado |
|---|
| Até 2 anos | 0% a 10% | 0% | 0% a 10% | 0% a 10% |
| 2 a 5 anos | 20% a 40% | até 15% | até 30% | até 40% |
| 10 anos ou mais | 40% a 80% | até 30% | até 60% | até 80% |
Os limites por perfil são referências didáticas, coerentes com os exemplos de alocação do questionário. Ajuste conforme o seu teste do estômago (Capítulo 5).
15.2 As carteiras da Ana (moderada)
A Ana completou a reserva no sétimo mês. Ela tem R$ 3.000 de sobra mensal e dois objetivos.
Carteira 0 — Reserva (R$ 30.000). 100% em Tesouro Selic e CDBs de liquidez diária (Capítulo 4). Fica parada.
Carteira 1 — Apartamento (R$ 80.000 em 5 anos, R$ 1.050 por mês). No Simulador de Objetivos, médio prazo com volatilidade baixa dá 80% em renda fixa e 20% em renda variável:
| Cenário | Valor em 5 anos |
|---|
| Pessimista | R$ 71.600 |
| Esperado | R$ 78.600 |
| Otimista | R$ 85.400 |
| Total investido | R$ 63.000 |
Composição para estudo:
| Classe | Peso | Exemplo de instrumento |
|---|
| Renda fixa com vencimento perto da data | 60% | Tesouro Prefixado ou IPCA+ com vencimento em 4 a 5 anos |
| Renda fixa pós-fixada | 20% | CDB, LCI ou LCA com prazo casado |
| Renda variável | 20% | ETF de ações amplo |
O plano de saída: a partir do terceiro ano, a Ana para de comprar renda variável e, no quarto ano, vende o ETF aos poucos (em lotes que respeitem a tributação, Capítulo 14). No último ano, a carteira está 100% em renda fixa. Assim, uma crise na bolsa no ano da compra do apartamento não afeta a entrada.
Carteira 2 — Liberdade (longo prazo, R$ 1.000 por mês). Longo prazo com volatilidade média dá 40% em renda fixa e 60% em renda variável:
| Cenário | Valor em 10 anos |
|---|
| Pessimista | R$ 116.400 |
| Esperado | R$ 205.600 |
| Otimista | R$ 358.500 |
| Total investido | R$ 120.000 |
O Simulador de Carteira, com idade de 32 anos, experiência razoável, perfil moderado, renda estável e reserva completa, mostra uma divisão de 15% reserva, 29% renda fixa e 56% renda variável, coerente com a Carteira 2.
Composição para estudo:
| Classe | Peso-alvo | Exemplo de instrumento |
|---|
| Renda fixa longa | 40% | Tesouro IPCA+ com vencimento em 15 a 20 anos |
| Ações Brasil | 25% | 75% em ETF amplo, 25% em ações estudadas (Capítulo 11) |
| Exterior | 15% | ETF global ou de S&P 500 |
| FIIs | 20% | 8 a 15 fundos ou um ETF de FIIs |
15.3 As carteiras do Bruno (conservador)
O Bruno ainda está construindo a reserva de R$ 107.250 (Capítulo 4), com 70% da sobra. Os outros 30% (R$ 750 por mês) vão para a faculdade dos filhos, um objetivo sem flexibilidade de prazo.
Carteira 1 — Faculdade (R$ 150.000 em valores de hoje, 12 anos). O simulador, com prazo longo e volatilidade baixa, sugere 60% em renda fixa e 40% em renda variável. Mas o perfil do Bruno é conservador e o objetivo não pode atrasar. O limite do perfil vence: 80% em renda fixa e 20% em renda variável, reduzindo a renda variável a zero nos 3 últimos anos.
| Classe | Peso | Exemplo de instrumento |
|---|
| Renda fixa atrelada à inflação | 60% | Tesouro Educa+ ou IPCA+ com vencimento perto do início da faculdade |
| Renda fixa pós-fixada | 20% | Tesouro Selic ou CDB |
| Renda variável | 20% | ETF de ações amplo |
Para chegar aos R$ 150 mil em valores de hoje, o Capítulo 6 mostrou que ele precisaria de cerca de R$ 802 por mês, corrigidos pela inflação. Com R$ 750 no começo e a reserva completa em cerca de 4 anos, quando todo o aporte poderá ir para a faculdade, a conta fecha.
O Simulador de Carteira, com 41 anos, pouca experiência, perfil conservador, renda instável e família, mostra uma divisão geral de 15% reserva, 75% renda fixa e 10% renda variável, com risco baixo. É o retrato de um patrimônio que prioriza segurança, e está certo para o momento do Bruno.
Carteira 2 — Aposentadoria (a partir da reserva completa). Quando a reserva estiver pronta, o Bruno começa uma carteira de aposentadoria com 70% em renda fixa (majoritariamente IPCA+ longo) e 30% em renda variável (ETFs e FIIs). O Capítulo 17 calcula quanto ele precisa.
15.4 As carteiras da Carla (começando com pouco)
A Carla saiu do rotativo (Capítulo 2), está construindo a reserva de R$ 16.080 e tem R$ 820 por mês para o futuro. O Simulador de Carteira deixa claro: sem reserva, 100% do dinheiro vai para a reserva. Ela só começa os outros objetivos quando a reserva estiver completa, no mês 18.
Depois disso, com reserva completa e um pouco mais de experiência, o Simulador de Carteira passa a mostrar 15% reserva, 44% renda fixa e 41% renda variável. Ela divide os R$ 820 assim:
Carteira 1 — Viagem (R$ 8.000 em 2 anos, cerca de R$ 300 por mês). Curto prazo: 100% em renda fixa. Um Tesouro Prefixado com vencimento em 2 anos ou um CDB de 2 anos. Com R$ 300 por mês, o simulador projeta R$ 7.809 em 2 anos; os outros R$ 191 ela completa com o 13º salário.
Carteira 2 — Independência (longo prazo, R$ 300 por mês e crescendo). A Carla tem 24 anos, horizonte de décadas e tolerância alta. No simulador, prazo longo e volatilidade alta dá 80% em renda variável:
| Cenário | Valor em 10 anos |
|---|
| Pessimista | R$ 30.478 |
| Esperado | R$ 64.373 |
| Otimista | R$ 137.557 |
| Total investido | R$ 36.000 |
O cenário pessimista fica abaixo do total investido. Como o perfil dela ainda é moderado e ela nunca viveu uma queda forte, a Carla começa com 60% em renda variável e só aumenta depois de atravessar a primeira crise sem vender. Os R$ 220 restantes ficam como folga no orçamento até o próximo aumento de salário, quando passam a ir para a Carteira 2.
Com valores pequenos, simplicidade vence. Com R$ 300 por mês, a Carla não precisa de dez ativos. Um ETF de ações brasileiras, um ETF global e um título IPCA+ longo resolvem. A diversificação está dentro dos ETFs.
15.5 Resumo das carteiras
| Personagem | Carteira | Prazo | Renda fixa | Renda variável | Aporte mensal |
|---|
| Ana | Reserva | Imediato | 100% | 0% | Completa |
| Ana | Apartamento | 5 anos | 80% → 100% | 20% → 0% | R$ 1.050 |
| Ana | Liberdade | 10+ anos | 40% | 60% | R$ 1.000 |
| Bruno | Reserva | Imediato | 100% | 0% | R$ 1.750 |
| Bruno | Faculdade | 12 anos | 80% → 100% | 20% → 0% | R$ 750 |
| Carla | Reserva | Imediato | 100% | 0% | R$ 820 até completar |
| Carla | Viagem | 2 anos | 100% | 0% | R$ 300 |
| Carla | Independência | 10+ anos | 40% | 60% | R$ 300 |
15.6 Testando a carteira antes de investir
Antes de comprar, rode a mistura no Backtest de Ativos:
- Adicione os ativos (ou ETFs que representem cada classe) com os pesos escolhidos.
- Coloque o valor inicial e o aporte mensal reais.
- Escolha o período mais longo disponível e marque Reinvestir Dividendos e Ajustar IPCA.
- Observe, antes do retorno final, a pior queda do período. Pergunte: eu teria segurado?
- Compare com uma versão mais conservadora da mesma carteira.
O backtest mostra o passado, não o futuro. O botão que busca o "maior retorno retrospectivo" encontra os pesos que teriam funcionado melhor no passado, o que raramente se repete. Use-o para entender, não para escolher.
15.7 Laboratório: quatro carteiras de 2022 a 2026
Para mostrar o que o backtest revela, rodamos no Backtest de Ativos quatro carteiras de janeiro de 2022 a setembro de 2026, todas com R$ 10.000 iniciais e 56 aportes mensais de R$ 1.000 (R$ 66.000 saídos do bolso). Os ativos são os do estudo da seção 11.11, usados só como exemplo.
| Carteira | Sem reinvestir dividendos | Reinvestindo dividendos | Lucro | Pior queda no período |
|---|
| 1. Renda: 50% HGLG11 e 50% ITUB4 | R$ 84.830 (+28,5%) | R$ 105.892 (+60,4%) | R$ 39.892 | −9,6% |
| 2. Dividendos altos: 50% ITUB4 e 50% PETR4 | R$ 105.151 (+59,3%) | R$ 146.107 (+121,4%) | R$ 80.107 | −25,1% |
| 3. Concentrada: 100% WEGE3 | R$ 87.655 (+32,8%) | R$ 92.703 (+40,5%) | R$ 26.703 | −30,7% |
| 4. Diversificada: 25% em cada um dos quatro | R$ 89.697 (+35,9%) | R$ 115.576 (+75,1%) | R$ 49.576 | −12,3% |
Três lições:
- Reinvestir os proventos muda tudo. Na carteira diversificada, o reinvestimento acrescentou R$ 25.879 ao resultado.
- A carteira que mais rendeu também teve uma das maiores quedas. A carteira 2 caiu 25% no caminho. Quem não aguentasse a queda teria vendido antes do resultado final.
- Diversificar reduziu o susto. A carteira 4 teve queda máxima de 12%, menos da metade da concentrada, com retorno intermediário.
Nenhuma dessas carteiras é uma recomendação: elas mostram o passado de um período específico, que não se repete. O mesmo vale para o botão de "maior retorno retrospectivo" do backtest: ele mostra a combinação que teria rendido mais no período já encerrado, tende a concentrar a carteira no ativo que mais subiu e não indica a melhor carteira para o futuro.
15.8 Colocando em prática
- Organize a corretora: se ela permitir, crie uma carteira com nome para cada objetivo. Se não, use uma planilha com uma aba por objetivo.
- Faça as primeiras compras seguindo os pesos-alvo.
- Automatize: transferência no dia do salário (Capítulo 2) e, quando possível, aplicações programadas no Tesouro.
- Defina o dia de aportar: um dia fixo por mês, sempre seguindo a regra de rebalanceamento (Capítulo 16).
- Escreva o plano: objetivo, prazo, aporte, pesos-alvo e o que fazer numa queda de 30%. Releia quando sentir vontade de mudar tudo.
Para guardar: a melhor carteira é aquela que você consegue manter nos momentos ruins. Uma carteira separada por objetivo torna isso muito mais fácil.
Exercícios do capítulo